quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Luuanda, de José Luandino Vieira






José Luandino Vieira é pseudônimo de José Vieira Mateus da Graça, nascido em Portugal, criado em Angola. Este Luuanda foi lançado no Brasil em 2006, e só estou lendo agora, guardado que foi para eu ler depois da aposentadoria... Pois chegou seu dia, que foi para mim um grande dia!


Os colegas luso-africanos estão fazendo belo trabalho com a linguagem: Mia Couto, o moçambicano, a recria; José Luandino a registra, a linguagem dos musseques onde habita a pobreza em Luanda, capital de Angola. E com isso, ao passá-la para a modalidade escrita, também a recria e lhe empresta grandeza. É o tipo de trabalho que admiro, como o que Tito Carvalho fez em Bulha d'arroio, ou João Antõnio em seus contos, este de fazer literatura de muito boa qualidade com o registro popular de fala.

Muitos dos termos encontrados no livro vieram para o Brasil, assumindo forma diferenciada, por se adaptarem a outro tipo de substrato linguístico. "N'ga", por exemplo, que ali é forma de tratamento, virou pra nós "nêga" - por isso se justifica a Nega Tide, por exemplo, como se usava na Ilha de Santa Catarina. "Vavó" e "Vavô" são nossos vovó e vovó. Moringa eles dizem "moiringue". E há termos, expressões, frases, que são puro dialeto africano, e desconhecemos completamente, mas para eles há um glossário, ao final. E as regências e algumas estruturas frasais são meio esquisitas pra nós, mas nem por isso menos bonitas. Me encanto: olhem só como os danadinhos dizem...


Junto com esse registro da linguagem, apreendemos a vida cotidiana, os hábitos, a filosofia de um povo pobre demais, e que se libertou do jugo lusitano muito depois de nós, em país não tão cheio de possibilidades como o nosso. São três contos, um trágico, outro muito divertido, o terceiro um tanto cruel. E todos muito bons.

E na página 58 encontro esta maravilha:

" Dizia Xico Futa:
Pode mesmo a gente saber, com a certeza, como é um caso começou, aonde começou, pra quê, quem? Saber mesmo o que estava se passar no coração da pessoa que faz, que procura, desfaz ou estraga as conversas, as macas?(1) Ou tudo que passa na vida não pode-se-lhe agarrar no princípio, quando chega nesse princípio vê afinal esse mesmo princípio era também o fim doutro princípio e então, se a gente segue assim, para trás ou para a frente, vê que não pode se partir o fio da vida, mesmo que está podre no outro lado, ele sempre se emenda noutro sítio, cresce, desvia, foge, avança, curva, pára, esconde, aparece... E digo isto, tenho minha razão. As pessoas falam, as gentes que estão nas conversas, que sofrem os casos e as macas (2) contam, e logo ali, ali mesmo, nessa hora em que passa qualquer confusão, cada qual fala a sua verdade e se continuam falar e discutir, a verdade começa a dar fruta, no fim é mesmo uma quinda (3) de verdades e uma quinda de mentiras, que a mentira é já uma hora da verdade ou o contrário mesmo."

(1) Aqui a palavra significa "assunto".
(2) Aqui, vai significar "conversas".
(3) Cesto.

VIEIRA, José Luandino. Luuanda. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Céu de origamis



De Luiz-Alfredo Garcia-Roza, Companhia das Letras,2009.


Diz o release da editora:

Cecília é uma secretária competente. Depois que seu patrão sai do consultório dentário ela guarda todo o equipamento, desliga os aparelhos, tranca a porta e vai embora. Doutor Marcos é um homem tranquilo, e o trabalho com ele é sem sobressaltos. Hoje ele e a mulher vão jantar em casa de amigos. Fato raro, pensa a secretária. Em geral, doutor Marcos e a mulher ficam em casa. Estranho, para um casal jovem como eles...

Cecília gosta de trabalhar no consultório. Tudo é sempre tão perfeitamente previsível que Cecília jamais poderia imaginar que no dia seguinte receberia a visita da polícia em busca de informações sobre seu patrão. Na véspera, doutor Marcos desaparecera sem deixar sinal. Não havia registro de acidentes de trânsito nem de nenhum tipo de ocorrência policial. Só que ele simplesmente não chegara em casa.

E, como se não bastasse, havia um detalhe absurdo: o carro de doutor Marcos estava estacionado exatamente onde deveria estar, em sua vaga na garagem do prédio onde morava. O que teria acontecido com doutor Marcos? Sobre ele, Cecília explicaria a Espinosa: "Sempre foi atencioso e gentil, nunca alterou a voz, nunca reclamou com mau humor de alguma coisa. Ele parece irreal".

* * *

Um só aspecto, nesse release. E não dá ideia do clima, de Espinosa se recuperando de cirurgia,por causa de um tiro no pulmão, do filho recém-chegado dos Estados Unidos, onde foi criado, pensando em vir se estabelecer no Brasil, dos mistérios e dúvidas que se vão acumulando e desvendando aos poucos.

AMEI! Acho um dos melhores romances de Garcia Roza, e sou fã deste Espinosa leitor voraz e de suas estantes sem estante... E o título tão original? Bem,é explicado bem lá no finzinho!

domingo, 22 de novembro de 2009

Almoçando na Barra

E pode ter coisa melhor?
Com bons amigos, no Capitão Fortaleza... Apesar do dia cinzento, foi ótimo!




Milagres acontecem: consegui captar a gaivota no voo!




E com direito a café no Mirante da Praia Mole.

sábado, 21 de novembro de 2009

Que flagra!

Hum, João tem 63 anos, mas ainda tá em forma, né não?
(maldades do Alberto!)


João Bosco aproveitou a tarde de quinta-feira, 5, para caminhar pela orla do Arpoador, Zona Sul carioca. O cantor adotou um look um tanto peculiar para a ocasião: uma sunga multicolorida acompanhada de um tênis vermelho. Bem ousado.

Prontos pro Natal



Acho a coisa mais brega do mundo,mas à noite até ficam bonitinhos...




quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fools rush in,com The Voice



A versão que João e Chico Bosco fizeram fica bem próxima da letra original:

Passos de amador

Tolos vão
Onde anjos temem ir
Por isso estou aqui, amor
De coração na mão
Sim, eu sei
Posso sofrer
Mas já não tenho, amor
Nada a perder
Tolos vão
Em passos de amador
Os sábios têm os pés no chão
Não sabem do amor
Foi te ver
Não pude mais voltar
Pois deixe no teu coração
Um tolo entrar

Coisas do destino?



Nessas "conjuminâncias" (meu pai ADORAVA esta palavra! Nem sei se existe...) meio estranhas da vida, de uns dias pra cá virei depositária de mensagens que não eram pra mim. De um modo geral, tenho achado muita graça.

Mas esta aqui me deixou intrigada:

"Deixaste ele te amar desse jeito, pra depois fazer o que fizeste, né, krd? Mals."

Estava no celular. O número de quem mandou também está, mas como evidentemente não é pra mim, fico na minha.

Mas tenho que avisar esta "KRD" que mande de novo a quem de direito. E, se for conhecida minha, favor explicar essa engronha! Fiquei muito curiosa!

Valeu a espera!



Depois de dias e dias de transtorno, terminaram a reforma da calçada em frente ao Itaú.
UFA!
Olhem como ficou legal!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Bodas de prata

Terminei "Profissionalismo é isso aí",tou agora analisando as canções que falam de casamento. É esta aqui é a primeira. E a mais antiga, também.



Bodas de prata
(João Bosco/Aldir Blanc)

Você fica deitada
De olhos arregalados
Ou andando no escuro de penhoar
Não adiantou nada
Cortar os cabelos e jogar no mar
Não adiantou nada o banho de ervas
Não adiantou nada o nome da outra
No pano vermelho
Pro anjo das trevas
Ele vai voltar tarde
Cheirando a cerveja,
Se atirar de sapato na cama vazia
E dormir na hora murmurando: Dora...
E você é Maria
Você fica deitada
Com medo do escuro
Ouvindo bater no ouvido
O coração descompassado
É o tempo, Maria, te comendo
Feito traça num vestido de noivado.

domingo, 8 de novembro de 2009

Paixão moçambicana






Esta semana andei ciscando nos livros, feito galinha desesperada. Comecei um, comecei outro, mas nada me agradava: enfiava de volta na prateleira. Sufocada pelo calor, estressada com exames médicos, queria algo que me desse TESÃO,poxa...

Ontem à tarde me deu na telha: vou ler o autor mais bonito do mundo, Mia Couto. Fui na estante, catei o primeiro, dos que ainda não tinha lido. Ah, era isso mesmo! Coimaxlinda, modeuzi!

A sinopse diz:
" Jesusalém, ermo encravado na savana, em Moçambique, abriga cinco almas apartadas das gentes e cidades do mundo. Ali, ensaiam um arremedo de vida - Silvestre e seus dois filhos, Mwanito e Ntunzi, mais o Tio Aproximado e o serviçal Zacaria. O passado para eles é pura negação recortada em torno da figura da mãe morta em circunstâncias misteriosas. E o futuro se afigura inexistente. Silvestre afança aos filhos e ao criado que o mundo acabou e que a mulher - qualquer mulher - é a desgraça dos homens. Mas um belo dia os donos do mundo voltarão para reivindicar a terra de Jesusalém. E não só isso - uma bela mulher também virá para agitar a inércia dos dias solitários daqueles homens."

Mas sinopses empobrecem, não falam da linguagem, do clima, do universo paralelo que se cria nas páginas que se vai abrindo,e nos puxam lá pra dentro, a compartilhar daquele mundo...

Mwanito é o narrador, o afinador de silêncios. É aquele que veio pra Jerusalém muito pequeno, não se lembra do mundo de lá, que, segundo o pai, morreu... Sua perspectiva é única, mas é curiosa, embora ainda não revoltada. A do irmão,porém, é pura revolta...

O pai brinca de ser Deus, e faz amor com a jumenta Jezibela, que corteja como se mulher fosse. E ela o trai com ...uma zebra.

Um dia aparece Maria, a portuguesa, e Jerusalém se torna o Eden, com adões que dão por falta de sua costela.

Mas no moçambicano Mia (diminutivo de Emílio) a linguagem é o grande achado. Se em Terra Sonâmbula, livro que fez seu renome, ele se mira no espelho da linguagem roseana, aqui ele é o dono dela. Mais que isso: é seu deus.

Cada capítulo tem epígrafe de grandes poetas mulheres da língua portuguesa: Sophia de Mello Brayner Andersen, Hilda Hilst, Adélia Prado (sintomático que duas sejam brasileiras? Não, Mia é declaradamente fã de nossos autores!)

Descobri que busco nos livros e nos autores justamente esse amálgama de enredo com linguagem própria e única, o prazer imenso de encontrar numa narrativa a criação de um universo que se diz com sua própria, adequada, inimitável linguagem.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O verão chegou!

* Levantei um pouco antes das seis, e fui ao varal pegar um short que estava lá. No prédio de trás, luz acesa, os bombeiros fazendo suas camas. Me deu pena, por causa dum clichê que há na minha cabeça: velho é que acorda cedo, a moçada gosta de dormir até mais tarde...

* Mais tarde, quando fui estender a roupa lavada, meu olhar passa rapidamente por ali e me ponho a rir: pra confirmar meu julgamento anterior, uma toalha de banho com estampa de brinquedos pendurada numa corda, perto da janela. Crianças, crianças, mesmo.

* Quando a gente gosta do que ensina, aprende mais que os alunos... Ensinava a observar, e acho que quem mais aprendeu fui eu mesma... Rápida mirada, e faço retrato da pessoa que observo... No primeiro andar ali são os bombeiros. Acima deles, uma família. E a guria que ocupa o quarto que dá pra área daqui é supercaprichosa, dá até gosto ver.Tá sempre arrumando alguma coisa, sem no entanto ser compulsiva, como se arrumasse quando deixa de usar, ou quando ela mesma desarruma.Acertou seu ritmo e seu método, e funciona bem dentro deles. E tem horários de abrir e fechar as persianas, conforme o andamento do sol...

* Continuo terrível com as datas. Me ligaram há pouco da clínica: a senhora tem consulta hoje com a dra.Fulana, às 13:50. Me pus a rir: eu tava certa que seria amanhã, ainda bem que ligaste! Irei, irei!

* Trabalhei tempão em "Coisa Feita", de João e Aldir, enchi páginas de anotações, mas o texto, nada! Nem a fórceps! Ouvi todas as diferentes gravações que João fez dela, incluindo a do DVD, e nada! Me queixo pra amigo lajeano, e ele ri da minha cara: tás parecendo touro marrão! Para de dar marrada na parede, e passa pra outra, depois voltas pra essa. Sem estresse. Não é que ele tem razão? Tou em "Profissionalismo é isso aí", e tá indo legal... Sou tão idiota, às vezes! E adorei ser chamada de touro marrão, expressão que os avós serranos usavam, mas eu não ouvia há tempos.

* Vou redigitar as entrevistas que fiz com João, porque não tenho em arquivo. E releio. Como João é bom, gente,'cês nem imaginam! Bom demais, bom demais, merecedor de cada grama de admiração que tenho por ele. Tou louca pra fazer entrevista nova, pensando no que pode vir, nós dois mais maduros, mais experientes e mais sábios...

* Calor, calor,pernilongos mil, as donas pernilongas serenatando e mordendo, atrás de seu ciclo reprodutivo. Mas Sérgio da Costa Ramos diz que vai ser verão de chuva. Leio e dou risada: não sei se é real, ou apenas desejo dele, pra se livrar da terrível invasão estival!

Crônica do Rubens da Cunha

OS ANIMAIS-TEXTO

Puxa um livro ao acaso da estante: “Jardim Zoológico”, de Wilson Bueno. Abre ao acaso uma página: 73. Lê. Concentra-se no mundo imaginário de Bueno, na linguagem poética. Visiona “os Zíngaros & os Zongues”, os animais inventados por Bueno para ocupar esse jardim zoológico.

Os animais podem ser inventados, mas, ao serem escritos e enjaulados na página 73, tornam-se mais reais do que leões ou elefentes. Engraçado isso: personagens, cenários, ideias, versos, tudo que ser cria em literatura fica preso na página, igual a um jardim zoológico. Entramos, às vezes, num livro e o percorremos inteiro, do começo ao fim, libertamos alguns animais, deixamos outros presos no esquecimento.

Em outros livros, sobretudo os de poemas e de narrativas breves, podemos visitar apenas um texto, observá-lo mais atentamente, decidir se vamos trazê-lo conosco ou vamos deixar ali, eternamente, naquela página.

Todo leitor tem consigo pelo menos uma dezena de animais-texto de estimação, libertos de algum livro. São animais que o protegem numa situação incômoda de tristeza, ou que o tornam inteligente quando precisa aparentar inteligência. Leitores são seres frágeis, estão sempre à caça de novos textos.

Não que os velhos não sirvam mais, mas uma reserva é sempre bem vinda, e mesmo o mais genial texto gasta-se com o tempo, vide o “ser ou não ser” de Shakespeare, talvez o animal-texto mais usado no mundo. Enfim, todo clichê já foi uma frase original.

Visita mais um animal de Wilson Bueno: página 33. “Os dicéfalos”, animais com duas cabeças que habitam as geladas florestas da Islândia. Duas cabeças? E se tivéssemos realmente duas cabeças? Ou mais cabeças? Talvez por isso os leitores fazem dos textos que eles libertam dos livros suas outras cabeças.

Os textos falam, pensam, sentem pelo leitor, e reciprocamente o leitor também fala, pensa e sente com os textos. É um intercâmbio, um intermédio entre o leitor, bicho de uma cabeça apenas, e as infindas cabeças-texto que ele conseguir libertar, ou melhor, que o leitor conseguir prender a ele mesmo, afinal cada citação, cada lembrança de um texto nada mais é do que amarrá-lo um pouco mais sobre nosso corpo, aprisioná-lo um pouco mais ao lado de nossa cabeça original. Todo leitor, mais do que um dicéfalo, é um pluricéfalo.

Página 27. “Os nácares”. Animais que vibram na ausência da luz. Foram vistos por Jorge Luiz Borges, graças à cegueira dele. O leitor também precisa ser um cego para resgatar alguns animais-texto. Precisa não lhes ver a procedência, não lhes ver os espinhos e as agruras. Todo leitor sabe que o melhor animal-texto é aquele que o fere, seja por raiva, seja por beleza, mas é sempre um ferimento profundo e viciante, por isso o leitor precisa de cuidado, libertar um animal-texto feroz sempre de noite, um de cada vez, amansá-lo com pouca leitura, caso contrário será engolido pela força voraz do animal-texto recém liberto e zaz: foi-se mais um leitor em direção à luz.

Leitor bom é leitor dentro da escuridão, leitor em busca da luz. Com a luz encontrada, todas as jaulas são abertas e tudo se acaba em nada.

(Anexo, AN, 4/11/2009)

Crônica do Amílcar Neves

Morcegos e chocolate

É uma situação constrangedora quando preciso falar aqui de certos assuntos sensíveis, polêmicos ou delicados, abordar ideias tidas por ofensivas a quem delas discorda por motivações políticas, religiosas ou futebolísticas. Esse negócio de haver crianças na sala só complica mais as coisas. Como retirá-las em tempo hábil se nunca se sabe quando alguém vai pegar o jornal e abri-lo precisamente nesta página? Com a televisão é mais fácil, basta colocar a advertência no ar e a responsabilidade pelo que elas virem a seguir passa automaticamente a ser dos pais. O jornal não dispõe de tal recurso.

Pior: o jornal trata da palavra escrita, e esta é muito mais ameaçadora e insidiosa do que a palavra falada, do que mil imagens. Jornais, assim como livros, submetem os seus autores a constante sobressalto: quando será que alguém se sentirá atingido, profundamente ofendido por uma palavra ou uma frase e entrará com um processo judicial pedindo a censura sumária do que foi dito – melhor: do que foi escrito –, exigindo sua retirada incondicional do mundo das coisas acontecidas, e, como castigo adicional, uma polpuda indenização por danos morais? Isso pode suceder mesmo muitos anos depois que se deram as coisas relatadas.

Há tribunais que concedem tanto a censura quanto a indenização.

Imagino que, a esta altura da crônica, as crianças tenham abandonado o texto, possivelmente o próprio jornal, desinteressadas já desta conversa que lhes parece que a nada levará. E isto fi-lo de propósito, para despistar-lhes a atenção. O problema é que, atingido este intento inicial muito importante (para não ter problemas com o editor do caderno nem com as penas da Lei), percebo que se esvai irremediavelmente o meu precioso espaço e sequer, afora o título posto no topo, entrei no assunto.

Queria dizer-lhes, agora que, a bem dizer, as crianças deixaram a sala, que o chocolate causa quatro vezes mais prazer do que um beijo, especialmente se o deixarmos derreter lentamente sobre a língua (vale para ambos, parece).

E os morcegos? Bem, os morcegos asiáticos de uma espécie frutívora fazem sexo oral para prolongar a relação, ou seja, supõe-se que usem muito a língua para falar entre si de sexo (o tal de sexo oral) e, assim, incrementar a relação social entre os indivíduos da colônia.

Comprova-se, assim, que sempre é prudente empregar a língua com moderação.

(Variedades,DC,4/11/2009)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

sábado, 31 de outubro de 2009

Porque hoje é sábado




* A charge do Frank me fez lembrar que hoje é Halooween, o que não teria importância, em outro local. Mas aqui no condomínio as crianças passam pedindo doces, tenho que providenciar algum... Pirulitos? Bombons? Sacos de bala? Lá nas galegas eu resolvo...

* Ano passado esqueci, dei dinheiro.Depois fiquei pensando: estes danadinhos são bem capazes de aproveitar e ir comprar alguma coisa que as mães não permitem... Melhor não!

* Fui ao banco, passei na padaria pra pegar um pão fresquinho, e tava entrando quando uma voz me chama: psiu!psiu! ei vizinha, não tá cantando, hoje? (Era o aluno de jornalismo que faz estágio (?) na Quorum, e me contava que me ouve passar cantando - fico morta de vergonha, juro nunca mais cantar... e esqueço ali na esquina). Me virei de mãos na cintura: agora é que estás chegando, mas que pouca vergonha! (Ele diz que não, que está chegando cedo porque vai fazer mudança... Os vizinhos estudantes são sazonais, mudam a cada estação).

* Recebi do Rodrigo Schwarz, escritor e jornalista do AN, seu livro infantil:Ração pra cobras. Tá uma gracinha, com as ilustrações do Fábio Abreu. Eu já tinha lido no original, porque Rodrigo pediu opinião, mas assim impresso, ilustrado, bonitinho à beça - é outra coisa, né? (Rodrigo sempre diz que sou a única pessoa que nunca erra o sobrenome dele. Eu caio na risada: não sou besta, cara, vou sempre conferir!)

* Hoje tem churrasco, aqui no condô, da turma de 99.1 - são 10 anos do ingresso no curso duma das turmas mais festeiras do Jornalismo/UFSC. Ginny ligou de Brasília: quero ver te escapares, é aí no teu condomínio! Neto garantiu que vinha. Michele, que foi minha orientanda, não vai poder... Mas vai ser legal!

* E mais tarde vem um amigo me ajudar a transferir as cortinas da sala para a sacada - vou fazer experiência em decoração, pra ver como gosto mais... E até, agora que envidracei a sacada, se deixo as portas da sala ou não... Mas sem gastar, que a barra anda pesada!

* E pra todo mundo desejo um bom feriadão!

Crônica do Fábio Brüggemann

Ledos enganos

Há mais de 2.500 anos, Tales de Mileto, o filósofo grego, acreditava que as plantas eram água antes de serem plantas, porque a cada vez que a chuva caía elas brotavam. Para ele, tudo era feito de água. Já um de seus discípulos, Anaximandro, foi um dos primeiros a desmontar a ideia de que a Terra não era sustentada por alguma coisa, mas ainda tinha certeza de que era plana, apenas um ledo engano.

Desculpas pelo salto de mil anos na história, mas Giordano Bruno foi queimado na fogueira da Inquisição porque atribuiu ao universo uma infinitude discordante dos “sábios doutos” da Igreja Católica. Galileu Galileu quase foi queimado, e só não foi porque voltou atrás (não por convicção, mas por medo) de sua própria afirmação anterior de que a Terra era redonda e girava.

Indivíduos têm muitas ideias revolucionárias, ao contrário do coletivo, que eu chamaria aqui de “institucional”, pois custa, por vezes milênios, a aceitar novos conceitos talvez óbvios, como os fatos de que nem tudo é água, que a Terra, além de ser redonda, gira, e, por fim, que o universo talvez seja mesmo, pelas várias evidências científicas, infinito. Isso pode ser um bom argumento para a tese de que tudo aquilo que pensamos sobre as coisas que realmente interessam podem estar bastante equivocadas.

Tudo bem que é muito difícil suplantar os desejos da experiência pessoal. É diferente, muito aliás, alguém saber que pode morrer se fumar muito cigarro, ou beber muita cachaça, ou ficar burro por assistir muita televisão. Mesmo assim, pessoas continuam fumando, bebendo cachaça e, o que é pior que tudo isso, assistindo televisão.

Somos todos filhos do engano. Inclusive, escrever sobre isso talvez seja apenas mais um engano, e não tão ledo. Aliás, pouca gente sabe que “ledo” vem do latim e significa “alegre”. Alguns enganos individuais talvez não façam tão mal, a não ser àquele que se autoengana. Agora, os enganos coletivos, como o modo tolo como dirigimos, votamos, acreditamos, pensamos, enfim, estes não são nada ledos.

(Variedades, DC, 31/10/2009)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Caetano canta Incompatibilidade

Caetano fala sobre Incompatibilidade...

Crônica do Olsen


(O poeta Dylan Thomas)




O DIA DE ESTRELA DE UM MALDITO

Olsen Jr.

O poeta galês, Dylan Thomas, se estivesse vivo celebraria 95 anos este mês. Lembrei porque me perguntaram sobre ele, cinco dias atrás.

Essa crônica trata dos malditos.

Convencionou-se chamar de “maldito” aquele escritor de talento que, longe do seu “fazer”, despreza as convenções sociais, o maneirismo peculiar da sociedade que, por dever de nascimento, deveria absorver.

Não obedece às regras porque, afinal, quem segue está sempre atrás. A minha razão é essa, mas cada um pode fazer a própria lista.

A grande arte é intuitiva.

Depois de um lauto almoço elaborado por Márcia Philippe, mulher do João Vianney, ex-sócio na Editora Paralelo 27 (junto com Carlos Damião) e, coisa rara, de sócios que continuam se dando bem após o término da sociedade, acompanhados da Julie e da Jade, também o Victor Hugo, a quem acabara de conhecer, ligado a informática, bom papo, seguimos para um bolicho à beira da estrada para assistir ao Gre-Nal... Claro está que nessa empreitada só foram os homens.

Casa cheia, reduto gremista, mas o proprietário administrava a tasca com pulso firme, poderíamos ficar tranquilos, segundo a informação do Vianney, uma vez que tanto eu quanto o Victor éramos torcedores do colorado.

Permanecemos ali fora, a conversa estava boa e, com todo o respeito, não vimos o jogo. Soubemos do gol logo no início pelo óbvio da exaltação dos vermelhos.

Quando terminou o embate tive de entrar na birosca para buscar duas cervejas, porque estava na minha vez. Nas costas da camisa vermelha que usava, estava o meu nome e alguém me chamou. Logo dou de cara com três gremistas pilchados e um deles, pergunta: “o que o senhor acha do Dylan Thomas e da Beat Generation?”. Sem refletir muito, afirmo que o Bob Dylan (cujo nome verdadeiro é Robert Allen Zimmermann) adotou o Dylan em uma homenagem ao poeta... Eles me ouviram e um deles afirmou “gostei do papo, quem sabe o senhor não fica aí para a gente conversar mais?”... Disse que estava com amigos ali fora, mais tarde poderia ser.

Quando saí, me lembrei que foi o Pasquim, na década de 1970, através dos textos do escritor Luis Carlos Maciel que nos tinha revelado o Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Charles Bukovsky, Neal Cassady, Gregory Corso, Timothy Leary, Peter Orlovsky, Carl Solomon, Lawrence Ferlinghetti...

Mais tarde, um dos gremistas que era também professor, se aproximou e me pediu um autógrafo... No princípio acreditei que ele estivesse tirando um sarro, mas não, se confessou um admirador e falou de uma crônica “Os Novos Beatniks” publicada nesse mesmo espaço na véspera de natal do ano passado, daí o seu interesse pelo tema.

O papo ia animado e logo os outros dois gremistas entraram na roda. Quem nos visse de longe acharia inusitado, um torcedor colorado com outros três gremistas discutindo literatura. Um deles disse que ainda curtia a velha máquina de escrever e o Victor Hugo ficou de rever sua concepção sobre o uso da tecnologia entre os mais jovens.

Afirmei que outros autores, pouco lembrados, tinham influenciado aquela geração e poucos se davam conta, citei o J. D. Salinger e “O Apanhador do Campo de Centeio” em que alguns (depois de um porre) incorporavam o personagem do livro, Holden Caulfield (rimos) e também, talvez o melhor deles, Ken Kasey que escreveu “Voando Sobre um Ninho de Cucos” e inspirado nele que o Milos Forman fez o filme “Um Estranho no Ninho”... Mais recente, “Quando Eu Era o Tal”, de Sam Kashner sobre a vida na Jack Kerouac School...

Próximo das 22hs quando o teor alcoólico da moçada já estava entrando no campo das confidências, lembrei do Dylan Thomas “Um alcoólatra é alguém de quem você não gosta e que bebe tanto quanto você”... Despedimo-nos e prometemos continuar o papo no próximo jogo, independente do Grêmio ou Internacional.

(recebida por email)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Crônica do Maicon Tenfen

O cinema pornô

No último sábado, nas dependências da Furb, em Blumenau, tive oportunidade de assistir a uma palestra sobre a história do cinema pornô no Brasil e no mundo. Tema interessante e necessário, mas também espinhoso, pois se é verdade que tudo pode ser discutido academicamente, não é menos verdadeiro que a pornografia ainda figure como assunto “deslocado” na Universidade, ainda mais porque o palestrante, o historiador Viegas Fernandes da Costa, fez questão de exemplificar sua fala com fragmentos de filmes e vídeos clássicos do gênero.

A pornografia no cinema nasce imediatamente depois da invenção dos irmãos Lumière. Logo nos anos 1920, era comum a exibição de filminhos pornográficos em ambientes clandestinos como prostíbulos e cabarés. Esses filminhos eram chamados de “stags”, duravam menos de 10 minutos e valorizavam o vouyerismo (sempre havia um desocupado espiando pelo buraco da fechadura). Não deixa de chamar atenção o caráter transgressor dos “stags”, que primavam pelo ataque debochado a instituições estabelecidas como a Igreja e a Família – além de situações adulterinas, eram recorrentes as encenações de surubas envolvendo padres e freiras!

Dessa época até a liberação da pornografia e a eclosão do grande cinema pornô dos anos 1970 com Garganta Profunda e O Diabo na Carne da Srta. Jones, ambos do mítico Gerard Damiano, fica claro que as técnicas de filmagem erótica evoluíram no mesmo passo em que evoluíram as técnicas de depilação feminina. No Brasil, merece destaque Oh Rebuceteio! (o título é um achado!), de Claudio Cunha, exibido no finzinho da ditadura militar.

Nós catarinenses não devemos esquecer a preciosa contribuição dada ao gênero por nosso conterrâneo Ody Fraga (1927-1987). Inicialmente membro do Grupo Sul, companheiro de Salim Miguel e Silveira de Souza, Ody mudou-se para São Paulo e dirigiu dezenas de pornôs de sucesso, alguns com títulos sugestivos como Senta no Meu, Que Eu Entro na Tua e Mulheres Taradas por Animais. Quem disse que os barrigas-verdes nunca chegaram lá, hein?!

A partir dos anos 1990, com a popularização do videocassete, e mais recentemente, com a avalanche de pornografia veiculada na internet, o pornô perdeu seu caráter público e transgressor para se concentrar no individualismo da esfera privada. Essa passagem da sociologia para a psiquiatria merece estudos (de preferência ilustrados) que ainda precisam ser feitos.

(Variedades,DC,29/10/2009)